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Quem é Deus?

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Quem é mais inteligente o homem ou Deus?

Lógico que dirão que Deus é mais inteligente Os teístas dizem que precisamos de um criador porque não é possível um ser inteligente ter aparecido naturalmente, como se conhecessem todos os processos da natureza, mas ai fica a pergunta. Quem fez Deus então já que Ele é mais inteligente que o homem? Se a inteligência não pode surgir naturalmente, então como a inteligência de Deus surgiu?

Outro argumento teísta é que não existem coisas naturais. Que tudo foi feito ou fabricado ou criado por alguém, no caso, Deus. Se nada pode surgir naturalmente, se tudo precisa ser feito por alguém, então eu pergunto: Quem fez Deus? Já que tudo que existe precisa ser feito por alguém, então Deus também precisa ser feito por alguém.

De novo os teístas propõem uma regra e dizem que Deus é a exceção a regra.

Dizem os teístas que a consciência é algo tão maravilhoso que não pode ter surgido naturalmente. Que alguém fez a consciência. Deus é consciente? Então quem fez a consciência de Deus? De novo, eles propõem uma regra e dizem que Deus é a exceção.

Raciocínio circular, circular, circular. Fazem uma pergunta e propõem uma exceção e não uma resposta. Chamam isso de responder algo?

Dizem os teístas que Deus é perfeito. Hora, coisas perfeitas não mudam. Se você tem um álbum de figurinhas completo, então você não precisa comprar mais. Já tem tudo que deseja. Se Deus é perfeito, ele não precisa ou deseja nada; nunca precisou ou desejou nada. Necessitar ou desejar implica que falta algo. Um ser perfeito não pode ter criado o universo porque um ser perfeito não teria motivo para isso. Ele já teria tudo que precisava, não desejaria nada porque já estaria plenamente satisfeito. Sendo assim, nada perfeito poderia criar, pois não teria necessidade ou desejo de criar. Criar para que se você já tem tudo que deseja e necessita? Mas teístas dizem que Deus não precisava e não desejava fazer o universo, mas mesmo assim ele cismou de fazer. Sem incentivo algum. Sem eira nem beira. De repente ele acordou e falou:

Vou fazer um universo. Porque vou fazer? Não sei. Desejo fazer um universo? Não, porque não me falta nada, eu tenho tudo que preciso e quero. Porque vou fazer o universo então? Porque me deu na telha.

Um ser vivo tem necessidades e desejos, mas uma coisa não tem nem desejo e nem necessidade. Deus é um ser que não tem nem desejo e nem necessidade, mas mesmo assim ele fez o universo. Sem mais nem menos. Por Acaso. Arbitrariamente.

Depois que Deus resolveu fazer o universo, mesmo sem desejo ou necessidade, ele pensou. “Como será esse universo que farei?”  Pensou como? O pensamento é como uma secreção. Ele gasta calorias porque fica constantemente concentrado no exterior tentando entender e se adaptar ao meio. Sem exterior, Deus pensava no que? Pensava sobre o quê? Sobre si próprio o tempo todo? Não tinha outro assunto?

Mas ai, ele pensou, não sei como, e planejou, não sei como ou por quê, o universo. Pensou em todas as possibilidades, planejou o universo nos mínimos detalhes, sem necessidade, e depois que calculou tudo, deu um passe de mágica e fez surgir tudo do nada.

Do nada?

O ser humano diz que nada pode vir do nada, no entanto, Deus é a exceção, ele pode tirar as coisas do nada. Deus tirou o desejo, a necessidade, os planos e o próprio universo do nada, já que ele não tinha nem necessidade ou desejo ou pensamento ou consciência para fazer o universo.

Falemos de moral. O que é a moral? Um ser que não sofre pode ser moral? A moral existe para facilitar a vida porque somos vulneráveis. Se permitirmos que roubem, seremos roubados e isso não é bom. Se permitirmos que matem, podemos ser mortos e isso não é bom. Se permitirmos a violência, seremos atacados e isso não é bom.

A causa da moral está no fato de termos que sobreviver e não sermos invulneráveis. As regras de conduta têm a ver com a sobrevivência da espécie. Regras de conduta existem até mesmo em animais irracionais. Certas coisas são proibidas porque causariam a extinção ou a dor na espécie. E isso nenhuma espécie quer.

Deus sofre? Morre? É vulnerável? Não! Então ele não tem moral.

Por isso a ideia chamada Deus provocou tantas imoralidades na humanidade. Hebreus mataram milhões em nome de Deus. Árabes também. Cristãos também. Eles matam sem dó porque não acreditam na morte. Acham-se invulneráveis. Acham que tem uma alma imortal. Se você tem uma alma imortal, então a morte nada significa. Você pode morrer e matar com mais facilidade. Quer um incentivo maior a guerra do que esse? Você não está destruindo ninguém, a morte é simplesmente uma “mudança de plano” porque você é imortal de fato.

Teístas dizem que todos têm que ser morais. Que não há exceção. Que as pessoas precisam ter moral porque moral é o bem. Mas existe uma pessoa que está acima da moral. Essa regra só é valida para humanos, Deus está acima da moral. Ele não precisa obedecer à regra. De novo eles propõem uma regra e aparecem com uma exceção.

O fato é que isso leva as pessoas a fazerem coisas que nunca fariam normalmente. Uma pessoa normal, em geral, não ia sair por ai matando e estuprando sem sentir pena do próximo porque ele consegue se colocar no lugar do outro e ver sua vulnerabilidade, já que também é vulnerável. Mas Deus está acima de tudo. Deus está acima da moral e da ética. Assim se eu lhe disser que Deus o mandou matar, estuprar, roubar, destruir, você mata, rouba e destrói porque a moral não é valida para Deus. Ou seja, tudo que Deus mandar torna-se automaticamente moral, então, o representante de Deus na terra tem essa vantagem sobre políticos. Se Deus mandou, é moral.

Dizem que Deus é o bem. É o amor. No entanto o mundo está cheio de coisas más. Dizem que Deus pode acabar com o mal num piscar de olhos. Mas ele não acaba com o mal. Por quê? Ninguém explica.

Dizem que Deus um dia acabará com o mal. Esse dia nunca chega. Mas continuam acreditando. Ou então dizem que esse plano tem o mal, mas outros não. Porque Deus ia fazer um plano com mal e outro não? Qual o motivo? Ninguém explica. E quando explicam dizem que Deus está acima do bem e do mal. Que apesar dele fazer coisas imperfeitas, ele continua sendo perfeito. Como a perfeição pode gerar a imperfeição?

Dizem que Deus é onisciente, mas que temos livre arbítrio. Como temos livre arbítrio se Deus já sabe tudo que faremos antes mesmo de nascermos? Se ele já sabe tudo que vai acontecer, então tudo já está escrito, se tudo já está escrito, tudo está determinado, se tudo está determinado, o pecado não existe porque ninguém agiu por livre e espontânea vontade.

Se o pecado não existe, tudo está acontecendo exatamente como Deus queria desde o principio.

Ou seja, Deus escreveu que o World Trade Center seria atacado por terroristas. Deus escreveu ou determinou que crianças seriam estupradas. Deus escreveu todas as guerras. Deus determinou todo o mal que acontece com você. Deus determinou porque ele fez tudo e por isso sabe tudo que vai acontecer. Todos são simplesmente atores representando um papel. Essa doutrina leva a imoralidade porque a pessoa não é responsável por nada. Não podemos nem culpar ninguém por nada porque tudo que acontece é vontade de Deus. Uma folha não cairá sem a permissão de Deus. Se alguém pode surpreender Deus, fazer algo que Deus não espera, então Deus não saberia, mas como Deus sabe, então tudo está determinado e, portanto a pessoa não tem livre arbítrio.

E o que é pior, nem Deus tem livre arbítrio, pois ele já sabe tudo o que ele vai fazer no futuro. Ele está determinado a fazer tudo exatamente como ele fez já que ele sabe seu próprio futuro. Saber não é uma possibilidade. Saber implica em ter certeza absoluta que as coisas vão acontecer exatamente como vão acontecer. Sem desvios. Se Deus sabe seu futuro, ele é escravo da determinação também. E se é escravo do script, então não é todo poderoso porque ele não pode fugir dele. Tudo vai acontecer exatamente como ele sabe, portanto ele não tem o poder de mudar nada, senão ele não saberia. Portanto a onisciência de Deus é descartada, pois gera muitos paradoxos.

Se o homem não tem livre arbítrio, nem Deus tem. E se Deus é onisciente, ele não seria todo-poderoso, pois não conseguiria fugir do script, teria que fazer o que sabe que fará. Sendo assim, esqueça as profecias de Deus, elas não precisam se concretizar porque Deus não é onisciente. Essas profecias são no máximo o que Deus quer que aconteça e não o que acontecerá, pois Deus não pode saber o resultado.

Dizem que o homem não pode fazer o impossível, mas Deus é a exceção, ele pode fazer o impossível. Pode Deus fazer uma pedra que ele não pode levantar? Pode, porque ele é Deus, ele pode fazer tudo, só que se ele não puder levantar a pedra, ele não é todo poderoso. Dizem que Deus não faz essa pedra porque não quer fazer. Mas a história é a mesma. Se ele cismar de fazer a tal pedra, de veneta, como tudo que Deus faz, então ele não poderia levantá-la já que ele a fez com o propósito de não levantá-la. E ai ele perderia a capacidade de ser todo poderoso. Se Deus não pode perder esse atributo, então é impossível para Deus fazer algo impossível a sua natureza.

Deus não pode fazer tudo porque ele poderia fazer coisas que o destruiriam, por exemplo. Poderia se matar. Poderia se machucar. Deus pode se destruir porque ele pode tudo. Alguns índios acham que Deus sumiu porque ele fez algo que o destruiu. Acham isso ridículo? Mas não é porque ele pode fazer tudo. Deus pode fazer outro Deus maior e mais poderoso que ele? Pode, porque ele pode fazer tudo, mas se ele fizer algo maior que ele, ele deixa de ser Deus e esse outro Deus pode destruí-lo porque também pode tudo.

Dizem que Deus é tudo. Deus é cocô? Deus é urina? Deus é o avião que derrubou o World Trade Center? Deus é o ódio? Deus é a avareza? Deus é o assassino e a vitima? Deus é a faca que mata, e a maca que leva ao pronto-socorro? Deus é um dente cariado?

Dizem que Deus é onipresente. O que isso significa? Que ele está em toda parte. Se é assim, Deus mora no inferno. Deus mora no Afeganistão. Deus mora no Brasil. Deus está em todos os recônditos do espaço. Deus está em todo mundo. Deus seria o universo. Seria tudo de bom e ruim.

Dizem que Deus vê tudo. Você faz amor em frente dos seus pais? Você vai ao banheiro na frente de todo mundo? Mas você faz todas as suas intimidades na frente de Deus? Tudo mesmo? Todo tipo de ato sexual? Sabendo que Deus está olhando cada movimento? O Espírito Santo dá palpites no seu ato sexual? E quando você vai ao banheiro?

Teístas sempre respondem que Deus é tudo aquilo que foge a regra. Dizem que Deus é o inexplicável. Nós, os céticos, temos um nome para coisas que acontecem sem eira nem beira, sem razão, sem lógica, sem explicação. O nome disso é Acaso. O Deus dos teístas é o Acaso!

Nós, céticos sabemos que o Acaso existe, só que não o adoramos. Não pedimos coisas de joelhos ao Acaso porque sabemos que o Acaso é arbitrário, faz o que lhe dá na telha sem razão alguma. Esse é o nome de seu Deus: Acaso.

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Autor: jmsilv@gmx.com

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Written by jmsilv

27 de fevereiro de 2009 at 5:29

A Criação de Deus

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Desejo, necessidade, carência, emoções, sentimento, prazer e dor são as forças que comandam o ser humano. Elas originaram todas as criações humanas, não importa o quão importantes ou insignificantes tenham sido essas realizações.

Que necessidades e sentimentos deram origem às religiões?

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Várias emoções deram origem às crenças religiosas. Sem dúvida, o medo foi a emoção que mais provocou esses sentimentos no homem primitivo. Medo da fome, de animais, de doenças, da morte e mais uma infinidade.

Como o conceito de causa e efeito era mal desenvolvido nesses seres primitivos, eles atribuíam causas sobrenaturais a todos os fenômenos naturais. Como o ser humano era capaz de manipular a matéria e criar artefatos, ele calculou que o mundo era uma espécie de artefato criado por outro ser ou seres maiores que ele, mas análogo a si próprio e atribuiu as desgraças e felicidades que lhe aconteciam a esses seres, assim explicando os acontecimentos recorrendo a causas sobrenaturais.

Tudo era explicado através de lendas e mitos. Pois tudo era causado por deuses ou demônios. Não existiam causas naturais em sua concepção. Se tinham um ferimento ou moléstia qualquer, não procuravam uma causa natural para os mesmos, já sabiam as causas: Os deuses ou demônios tinham sido contrariados de algum modo. A única maneira de acabar com o sofrimento era através de suplicas a esses seres sobrenaturais. Às vezes, esses deuses ou demônios exigiam sacrifícios, e os primitivos não hesitavam em obedecer.

O conceito de deuses e demônios evoluiu com os tempos, mas, no entanto a idéia central foi passada de geração em geração. Tanto que ninguém nunca questionava ou até hoje, questiona essas idéias. Idéias desenvolvidas pelo homem primitivo. Geradas principalmente pelo medo.

Logo, alguns perceberam que esses deuses e demônios podiam ser usados de modo lucrativo. Através deles o povo podia ser levado à obediência. Mães e pais começaram a propagar esse tipo de crença e a gerar demônios aos montes, afinal, é mais fácil controlar uma criança pelo medo do que pela razão. Tanto que até hoje existem mais demônios que deuses. A criança ficava mais fácil de ser manipulada se tivesse medo do bicho papão e de todos os tipos de monstros que pudessem imaginar.

Não demorou muito e surgiu uma classe de pessoas que se diziam mediadores entre demônios, deuses e o povo. Diziam que tinham poderes especiais para aplacar a ira desses seres terríveis. Deu-se inicio aos rituais. Assim surgiu provavelmente a mágica, pois o povo precisa de um espetáculo para acreditar que alguém tem poderes especiais. E o que era uma simples mágica se tornava milagres incríveis para o cidadão comum, e dado o desejo de impressionar que motiva a maioria dos humanos, esses truques se tornavam milagres cada vez maiores de geração em geração na sua narrativa. Nunca subestime o poder de exagerar do ser humano.

Lógico que toda tribo, todo povo, tinha um líder ou lideres. E esses líderes logo perceberam que o poder que os mediadores entre o natural e o sobrenatural tinham sobre o povo podia lhes ser muito útil. Os lideres tinham o poder da força. Podiam obrigar o povo a fazer o que quisessem, no entanto, nenhum líder quer um cidadão rebelde. Quanto mais mansos, melhores. Pelo menos mansos em relação ao líder. Seria muito mais fácil para eles que os cidadãos aceitassem obedecer de livre e espontânea vontade e se possível, ainda deveriam ficar felizes em fazer a vontade do mesmo. Daí surgiu outro uso para a religião.

Quando um líder administrava mal sua tribo. Logo achava que um demônio ou deus estava atrapalhando seus planos, e pedia aos sacerdotes que aplacassem a ira do mesmo. Afinal, eles não podiam acreditar que eram incompetentes. Tudo era causado por deuses ou demônios. Não existiam causas naturais.

O povo também às vezes se rebelava por achar que o líder tinha atraído à ira de um deus ou demônio, convinha ao líder respeitar os mediadores, pois os mesmos podiam influenciar o povo na crença de que o único modo de melhorar as circunstâncias era eliminando o líder que tinha provocado a ira dos deuses ou demônios. Daí surgir o respeito dos lideres as autoridades eclesiásticas. O líder tinha a força como poder, mas os mediadores tinham deuses e demônios como ferramentas. E que forças terríveis elas são. E assim o poder secular e o poder eclesiástico começaram o seu reino, e religião e política sempre andaram ligadas desde então. Um casamento duradouro.

Outros fatores contribuíram para o advento da religião, é claro.

Baseamo-nos nas qualidades de nossos pais e lideres para explicarmos as qualidades e defeitos de Deus. A grande maioria dos atributos, bons e ruins, vieram desse tipo de comparação. Queremos o apoio e o carinho de nossos pais, e é claro, queremos o mesmo de Deus. Queremos agradar nossos pais e líderes e sendo Deus uma super autoridade, queremos agradá-lo mais ainda. Tememos nossos pais e lideres e o mesmo acontece com Deus.

Esse Deus social pune e recompensa, apóia e auxilia. Conforta-nos em tempos difíceis. Protege-nos quando estamos em perigo. Esse Deus tanto pode ser pessoal como tribal, ou pode incluir até mesmo toda a raça humana. Mas ele veio de uma comparação com as autoridades em nossa vida. Daí muitas religiões pregarem que a rebeldia contra uma autoridade qualquer seja uma rebeldia contra Deus. Desobedecer ao pai seria semelhante a desobedecer a Deus. Desobedecer ao rei é desobediência a Divindade. Daí a idéia de muitos de que a falta de uma autoridade estabelecida na vida da pessoa durante a infância pode levar ao ateísmo. O que pode conter um quê de verdade. Afinal, é baseando-se nas autoridades em nossas vidas que criamos o Deus social. A primeira autoridade em nossas vidas é geralmente o pai e é por isso que Deus é chamado de pai em muitas religiões. Daí a explicação também, de que existe a possibilidade de uma criança se tornar atéia se houver a ausência do pai ou uma autoridade bem estabelecida em sua vida.

O medo da morte é outra grande motivação para as religiões. Todos morrem. Nossos pais morrem. Nossos filhos morrem. A morte está em toda parte. Para que você viva, algo tem que morrer. A morte é o preço da vida, afinal, ninguém pode viver comendo pedras. Só seres vivos podem nos dar a energia para continuarmos vivendo.

O problema é que ninguém quer morrer. Todos se agarram a vida. É um instinto natural em todos os animais. Mesmo quando a vida é insuportável, os seres se agarram a ela. Seres humanos não poderiam escapar desse apego ferrenho. Todos tentam preservá-la a todo custo. Como os seres humanos são provavelmente os únicos animais a saberem que vão morrer, como essa idéia nunca os abandona, como esse medo é mórbido. Deus não poderia ficar de fora.

No começo o único bem precioso que o primitivo tinha era a vida. Era a única coisa que possuía. Tudo o mais era passageiro. Ele sabia que ia morrer, mas aceitava a morte de bom grado, contanto que tivesse uma vida abençoada. E para que sua vida fosse abençoada, recorria aos deuses, é claro. No começo, a vários deuses, e depois ao grande chefe, ao Deus dos deuses. Lógico que até hoje temos religiosos politeístas que recorrem a deuses menores, ou santos, ou a aspectos do Deus maior. Mas todos são aspectos. No final, todos crêem que existe um maior que todos. Pois isso é baseado na sociedade em que vivem. Existem vários lideres, mas existe um presidente, ou chefe ou algo parecido que manda nos chefes menores.

A idéia de recorrer somente a um ser superior nunca colou muito com os humanos. Por isso, inventaram todo tipo de anjos ou demônios ou seres menores para explicar tudo que acontecia. Mas no começo, esses serem deveriam cuidar principalmente para que tivessem uma vida boa, abençoada, cheia de prazeres. E um único Deus não poderia explicar todos os fenômenos, daí todas as religiões terem demônios para explicar as coisas ruins, e disso também veio a idéia de um Grande Diabo. O chefão de todos os demônios. Pelo que eu saiba nenhuma religião conseguiu escapar da criação desse ser. De algum modo, ele sempre existe.

Com o passar dos tempos, os seres humanos não se contentaram mais em simplesmente ter uma vida boa. Precisavam de algo mais. E também não suportavam a vida que levavam, pois a mesma sempre fora cheia de problemas. Tinham que defender Deus, seu conceito de Deus, diante de tantas desventuras, daí o Diabo. Mas achavam que deveria haver um plano de existência em que o Diabo não participasse. Um plano perfeito. Pois ninguém conseguia acreditar que essa vida imperfeita fosse a única. O ser humano começou a imaginar como seria uma vida sem a necessidade da morte. A morte, a grande destruidora. A morte, que torna todos os esforços inúteis. A morte, que sempre interrompe os planos dos mais prudentes. A onipresente morte.

O ser humano tem uma imaginação estupenda. Quando concebe algo, tem o poder de criar as formas mais incríveis de realidade. E como a vaidade nos leva a nos agarrarmos a nossas idéias, e dado o fato de a ciência não ter existido num passado muito remoto, chegamos a acreditar veementemente em nossas idéias e imaginações, não importando o quão sublimes ou ridículas sejam.

Do fato de não nos conformarmos com a morte, de desejarmos viver, não importa em que condições, surgiram a grande maioria das idéia sobre vida depois da morte. Afinal, como justificar um Deus todo bondade, se não inventarmos uma realidade em que o mal não existe? Deve haver um plano de existência em que o demônio não participe. E para que Deus seja bondoso, como queremos que seja, pois o estamos comparando a um pai bondoso que tudo pode, precisamos inventar um céu. O céu é aquilo que o mundo deveria ser.

As escrituras judaicas exemplificam bem tanto a religião do medo como a religião da moral. Pois contem ambos os fatores em seus dogmas. Deus está sempre ali tanto para punir como para recompensar. E é um moralista em todas as áreas da existência humana.

O sexo é um fator interessante nas religiões. Quase todas elas tentam controlá-lo de alguma forma. Em quase todas elas, ele é um tabu. Algo que deve ser feito mais por obrigação do que por prazer. Creio que isso decorre do fato de, no começo, como as pessoas não sabiam das causas naturais das coisas, atribuíam as doenças venéreas ao castigo de Deus.

Quando participavam de algum ato sexual e uma doença se desenvolvia, na certa, Deus não gostara do que fizeram. O sexo desregrado também leva a gravidez indesejada, e convinha aos lideres religiosos controlar essa atividade de algum modo. Daí Deus ter se tornado moralista quanto a essa questão. A moral veio da necessidade de se diminuir as doenças venéreas cujas causas eram desconhecidas. Hoje todo esse moralismo não é mais tão necessário, existem meios melhores de controle, no entanto, é difícil acabar com hábitos arraigados.

A grande maioria das religiões trata da moral e da ética e dos bons costumes. Mas, muitas vezes, o fato de fixarem pensamentos em forma escrita dificulta a evolução moral. Muitos acham que o que está escrito foi escrito por Deus e, portanto imutável. Mas o que deu origem a moral foi um fato passado que muitas vezes não existe mais. A religião moral é superior a do medo. No entanto, quase nenhuma religião contem somente um elemento. Todas contem elementos tanto de medo como de moral. Geralmente os elementos mais avançados da sociedade seguem mais a religião da moral, e os mais atrasados, a do medo.

Deus sempre é na maioria das vezes antropomórfico. Deus é sempre um homem gigantesco na maioria das religiões. Com todas as qualidades e defeitos do mesmo. Defeitos e qualidades ampliadas a proporções gigantescas é claro. Isso acontece porque o homem não consegue conceber algo além daquilo que é, ou daquilo que seus sentidos mostram.

Outros acreditam que Deus é algo inconcebível, e, portanto temos que acreditar pela fé ou não acreditar, pois não temos como provar a existência de tal ser. Ele está além de nossos sentidos, sendo assim, além do natural. Ou seja, ele é sobrenatural. Mas é impossível ao homem falar de algo que não conhece pelos sentidos, e por isso usam um palavreado incompreensível aos não iniciados.

Poucos indivíduos passam desse nível de Deus antropomórfico. Só as camadas mais avançadas da população chegam a conceber um Deus como uma força, algo totalmente diverso do ser humano. Algo transcendente. As religiões do oriente chegaram a transferir esse pensamento para muitos dos membros da população. Mesmo assim, o povo, na sua maioria, não consegue conceber Deus como uma força. As religiões do oriente não conseguiram passar esse pensamento nem para as camadas mais avançadas, muitos tem esse pensamento, mas a maioria ainda ora para um Deus pessoal parecido com ele mesmo, e a idéia de o homem ser a imagem de Deus ainda torna esse pensamento mais difícil de mudar.

Existe outra forma de conceber Deus. Podemos concebê-lo como o Cosmo. O universo. Tudo que existe. Essa forma se chama Panteísmo. Que é uma forma de adorar o universo chamando-o de Deus. Essa forma de adoração está presente em todos os níveis. Muitas tribos primitivas adoram a natureza e a chama de Deus, e muitas pessoas avançadas são atéias, mas veneram tanto o universo que o mesmo se torna quase um Deus.

Alguns indivíduos adoram a ordem que permeia o universo como a um Deus. Sentem um sentimento de encanto ante a imensidão do cosmo e da ordem e as leis que o regulamentam. Sentem grande prazer em descobrir tudo sobre esse cosmo. Esses são em geral, cientistas. Que se contentam em deixar seus desejos mundanos de lado e se concentram em descobrir os mistérios que os permeiam. Esse mistério e seu desvendamento se tornam uma religião para eles. Einstein, que me inspirou muito, é um exemplo desse tipo de pensamento, assim como Espinosa. Eles procuravam experimentar o universo como um todo harmônico, mas para isso é preciso se desvencilhar dos pensamentos voltados para si próprios, dos pensamentos, desejos e problemas individuais e se concentram no cosmo e seus mistérios como missão de vida, e não em dinheiro e problemas pessoais.

É claro que esse tipo de religião nunca agradou a maioria. Essa maioria está mais interessada nos problemas do dia a dia e precisam de um Deus mais mundano que possa lhes ajudar a superá-los. Precisam de um Deus pessoal que lhes entenda e lhes ajude nas horas mais difíceis. E o universo ou cosmo é indiferente as suas criaturas. O universo não é nem bom nem ruim, ele simplesmente é. Simplesmente é neutro. Não se preocupa com as criaturas que nascem dele. E a idéia do Grande Pai no Céu será difícil de ser eliminada.

O ser humano quer ser visto, de algum modo, quer se sentir importante, importante para alguém, sua vaidade não vai deixar essa idéia morrer facilmente.

Dessa forma percebemos qual é a grande diferença entre religião e ciência. A ciência se baseia nas leis da Causa e Efeito, e, portanto não pode conceber que exista um ser mudando as leis só por caprichos de sua vontade. Para a ciência, a lei de Causa e Efeito é Deus, ela é a grande divindade. A ciência só tem um soberano: as leis naturais. Tudo tem uma explicação natural, não sobrenatural. Ela acredita que as causas de todos os males ou bens do ser humano são naturais e não sobrenaturais, não acredita que existam seres em outras realidades manipulando essa.

A ciência não acredita nem na religião do medo e nem na da moralidade. A moralidade só diz respeito aos seres humanos e não ao cosmo ou Deus. Um Deus que pune e recompensa é inconcebível para a ciência, pois ela crê que as ações dos homens são determinadas por causas internas e externas acima de seu controle e que, portanto o mesmo não é de fato responsável pelo que faz. Todas as idéias dos homens vêem de fora de algum modo. Da sociedade que o cerca, dos livros que lê, das influências da sua vida. Além de influências de sua própria natureza. Pois cada um tem um modo de ser que é determinado pelos seus próprios genes. Alguns nascem calmos, outros agitados. Uns com propensão a violência, outros não. Uns são tigres, outros coelhos assustados. Uns tem corpos altos e fortes, outros são baixos e fracos. E assim por diante.

Como pode Deus castigar ou punir alguém quando pelo menos 90% da personalidade de uma pessoa é determinado por causas acima de seu controle? Além do mais, existem várias religiões na terra, cada um com regras especificas para se entrar no céu. Sendo assim, como pode uma pessoa ser salva simplesmente por ter tido a sorte de ter nascido no local adequado? Pois sabemos muito bem que 90% das pessoas adotam a religião de seu local de origem ou uma variante da mesma. E mesmo quando mudam de religião radicalmente, nunca conseguem deixar por completo as crenças adquiridas na infância. Mudam de religião, mas seu comportamento continua compatível com as crenças anteriores.

Cercado como está de influências tanto internas como externas acima de seu controle. Que critério usaria Deus para julgá-lo? Jesus pediu para que não julgássemos o semelhante. Tem ele o direito de nos julgar?

O comportamento ético de um ser humano deve se basear em suas necessidades sociais e individuais e religião não precisa entrar nessas questões. O melhor guia para o comportamento social é a razão. Tudo gera conseqüências. Toda causa gera um efeito. Regras fixas de comportamento não são compatíveis com o ser humano, pois fatos sociais mudam o tempo todo. O exemplo do sexo que dei acima é um deles. Quando a religião tenta fixar um tipo de comportamento está indo contra o próprio progresso humano, pois tenta fixar aquilo que não deve ser fixado. O meio ambiente muda o comportamento. E um comportamento mal adaptado leva ao sofrimento. Todo organismo deve fazer tudo para sobreviver da melhor maneira possível, e a maneira que um ser humano sobrevive é usando sua mente para seu beneficio e para o beneficio da sociedade como um todo. Se procurar progredir, acabará ajudando todos.

A educação tem um papel fundamental como meio de influenciar o comportamento dos indivíduos. Convém ensinar as pessoas a pensar e a agir em sociedade. As escolas deveriam focar na formação de um bom cidadão e não somente fazer com que pessoas acumulem conhecimentos que nunca serão utilizados. A escola deveria ensinar lógica, matemática e línguas desde o começo. A lógica serve para evitar que as pessoas sejam presas fáceis de qualquer aproveitador que apareça pela frente. Quando aprendemos a argumentar, carregamos isso para todos os departamentos de nossas vidas. Passamos a valorizar um argumento bem feito. Passamos a dar valor à razão, a lógica. O pensamento se torna orientador. Uma escola deveria se preocupar em ensinar os seres humanos a pensarem, pois a gente pensa somente quando quer de fato. Se não fizermos um esforço para pensar, simplesmente seguimos nossos instintos e as opiniões da sociedade. E para que haja progresso para a raça humana convém que a mente da mesma seja libertada.

Como passamos a maior parte do tempo debatendo e tentando convencer o próximo a adotar um ponto de vista qualquer, para que o debate não caia na violência é necessário que a criança aprenda a debater de modo civilizado, usando argumentos lógicos desde a mais tenra idade. Pena que as escolas não façam isso.

Os estudantes quase sempre simplesmente ficam sentados em algum ponto da sala absorvendo tudo que lhe é ensinado. Absorvem palavras, palavras que não tem sentido se não entenderem qual o propósito da aula, se não entenderem o ponto e se não manifestarem sua opinião. A forma de debate deveria ser a usada por professores na sala de aula.

A língua tem papel fundamental, pois é através dela que entendemos o mundo e transmitimos ao semelhante nossos conhecimentos. E é trocando informações que evoluímos, sendo assim, todos deveriam saber se expressar com desenvoltura. Não somente em sua língua de origem, como também em outras que sejam importantes para suas vidas práticas. E mais uma vez, a lógica adquire um papel importante, pois temos que usar argumentos lógicos para convencer e persuadir. Se enfatizarmos na escola a forma de persuasão como maneira de influenciar o ser humano, talvez parem um pouco de recorrer à violência.

A fé é inimiga da lógica, pois ela aceita uma premissa sem investigação posterior. Se ensinássemos as pessoas a pensarem logicamente, talvez parassem de se entregar a todo tipo de culto que aparece à sua frente. É a falta de lógica e de confiança em suas faculdades mentais que faz com as pessoas se entreguem a todo tipo de religião. Por mais absurda que seja.

A religião mantém as pessoas na infância eterna. Sempre se entregando a alguém para resolver seus problemas pessoais. A falta de consciência em suas faculdades mentais e o complexo de inferioridade faz com que muitos parem de pensar logicamente e se entreguem a todo tipo de pensamento, por mais absurdo que seja.

As pessoas raramente analisam as tradições de seu povo, simplesmente aceitam tudo. Será que isso é bom para a raça como um todo? Será que não precisamos de mais rebeldes ao invés de mais conformistas? Todo avanço foi uma rebeldia. Uma rebeldia contra os padrões vigentes. Um quebra de paradigma. Rebeldia não significa ser do contra. Significa ser verdadeiro consigo próprio. Fazer as coisas em que se acredita, e não fazê-las simplesmente por que todos fazem. Rebeldia também não é ir contra tudo só para ser diferente. Rebeldia é fidelidade a nossa natureza intima. Não é ser do contra ou a favor. É ser integro com o que se acredita.

Autor: jmsilv@gmx.com


Written by jmsilv

25 de fevereiro de 2009 at 18:08

Publicado em Teologia